Por Alexandre Carvalho
Há algo de profundamente errado acontecendo no Brasil. O que antes era motivo de orgulho — o sistema de Justiça como guardião das leis e dos direitos — tornou-se, para muitos, o símbolo máximo da indignação nacional. O povo, que deveria encontrar amparo nos tribunais, encontra cada vez mais o peso de uma balança que insiste em pender para o lado errado.
Enquanto pequenos delitos são
punidos com rigor implacável, enquanto cidadãos comuns enfrentam prisões
preventivas que se arrastam por anos, os grandes crimes — os que drenam bilhões
dos cofres públicos e destroem vidas inteiras — parecem encontrar refúgio e
compreensão nas mais altas instâncias. Bancários que desviaram fortunas e
lesaram milhões de brasileiros são libertos. Políticos investigados por
corrupção voltam ao convívio social como se nada tivesse acontecido. Bandidos
do colarinho brando com laços duvidosos com o crime organizado têm seus
processos anulados. E, em contrapartida, coronéis, delegados e cidadãos do bem que
ousam desafiar o sistema sentem o peso desproporcional de um poder que se
tornou intocável.
O caso da jovem gaúcha Damaris
Vitória Kremer da Rosa escancara essa distorção cruel. Foram quase seis anos de
prisão preventiva, sem condenação, até ser absolvida — tarde demais.
Diagnosticada com câncer dentro da cadeia, ela morreu apenas 72 dias após ser
considerada inocente. Uma tragédia que sintetiza, com dor e revolta, a falência
de um sistema que pune sem julgar e absolve sem remorso.
A Justiça brasileira tornou-se,
para muitos, o espelho de uma sociedade invertida: onde o poderoso ri, o
honesto paga; onde o erro é relativizado e a impunidade é regra; onde a toga,
que deveria simbolizar sabedoria e equilíbrio, se transforma em instrumento de
arrogância e abuso.
O Supremo Tribunal Federal,
instituição concebida para ser o guardião da Constituição, vive hoje sob
questionamentos profundos. Em vez de limitar-se ao papel de zelar pelos
princípios constitucionais, tem invadido competências, legislando,
interferindo, reinterpretando e, por vezes, reescrevendo a própria lei.
Decisões recentes mostram um poder que se tornou autossuficiente, inalcançável
e sem freios. O que antes era equilíbrio entre os Poderes, agora soa como
submissão.
E neste contexto de submissão nos
perguntamos – onde está os demais poderes, o Legislativo e o Executivo? – pois bem,
está cada vez mais distante e aceitando tudo em troca de favores e barganha
política. Enquanto isso, o STF prospera cada vez mais e caminha para logo
governar o pais sozinha, intocável e soberana, se isso já não está acontecendo.
A sensação que ecoa nas ruas, nos
lares e nas redes é a de revolta. Revolta diante de um país que poderia ser
gigante, mas se ajoelha ante a impunidade. Revolta diante de uma Justiça que se
afastou do povo que deveria proteger. Revolta diante de um poder que esqueceu
que não há autoridade sem responsabilidade.
É preciso dizer com todas as letras: a confiança na Justiça está ruindo. E quando a Justiça perde sua credibilidade, perde-se também o último fio que sustenta a democracia. O Brasil não precisa de juízes mais poderosos. Precisa de juízes mais justos. O povo brasileiro não quer vingança. Quer apenas Justiça — aquela verdadeira, imparcial e humana, que não se curva diante de ninguém. Infelizmente querer não é poder e assim vamos indo cada vez mais para o fundo do abismo, pois no fim do poço já estamos faz tempo.
