Uma das empresas mais tradicionais do setor moveleiro do Planalto Norte de Santa Catarina teve sua falência decretada pela Justiça. A Móveis Três Irmãos, fundada em 1971 em Campo Alegre, encerra um capítulo de 55 anos de história marcado pela expansão industrial, exportações e geração de centenas de empregos na região.
A decisão foi assinada nesta segunda-feira, dia 10 de agosto, e ocorre depois de um processo de recuperação judicial iniciado em 2024. Conforme informações divulgadas pelo NSC Total, a empresa acumula uma dívida estimada em aproximadamente R$ 133 milhões, montante que ainda poderá sofrer alterações durante o processo de verificação dos créditos.
A Justiça determinou a expedição urgente de mandado para lacrar os estabelecimentos da empresa, incluindo a matriz em Campo Alegre e a unidade de Caçador. A medida tem como objetivo preservar o patrimônio que deverá ser levantado, avaliado e posteriormente vendido para pagamento dos credores.
Impacto direto em Fragosos e na região
A falência tem importância especial para a região de cobertura do Piên em Notícias. A matriz da Três Irmãos está instalada na região de Fragosos, em Campo Alegre, próxima da divisa com Piên.
Ao longo de sua trajetória, a indústria tornou-se uma importante fonte de empregos para moradores de Campo Alegre e também para trabalhadores de municípios próximos, incluindo São Bento do Sul e Piên. Além dos empregos diretos, uma empresa deste porte movimenta toda uma cadeia de fornecedores, transportadores e prestadores de serviços.
Ainda não há um número consolidado de trabalhadores desligados ou que permaneciam vinculados à empresa no momento da decretação da falência. Segundo informações repassadas pela administradora judicial Recupere ao NSC Total, em abril havia aproximadamente 301 funcionários, entre ativos e afastados, considerando a matriz de Campo Alegre e a unidade de Caçador.
Em outros momentos de sua história, a empresa chegou a gerar cerca de 500 empregos diretos, além dos postos de trabalho ligados indiretamente à cadeia produtiva.
Produção estava parada desde maio
A situação da empresa já era crítica nos últimos meses. Segundo consta na decisão judicial, as atividades produtivas estavam totalmente paralisadas desde 14 de maio de 2026.
O Ministério Público havia pedido a decretação da falência em junho. Na análise do caso, a Justiça apontou uma série de fatores que demonstrariam o agravamento da situação econômico-financeira e o descumprimento de obrigações previstas no plano de recuperação judicial.
Entre os pontos mencionados estão valores em aberto com credores de aproximadamente R$ 210,3 mil e € 175,5 mil, além da ausência de comprovação sobre a destinação de aproximadamente R$ 3,25 milhões obtidos por meio da alienação de ativos anteriormente homologados.
Também foram apontados problemas relacionados a parcelamentos fiscais. Conforme a decisão, três parcelamentos de ICMS foram cancelados pelo Estado de Santa Catarina em razão do atraso de três ou mais parcelas, além da existência de inadimplências perante a Receita Federal.
Outro ponto destacado pela Justiça foi o chamado “esvaziamento patrimonial”.
Segundo a decisão, houve retirada acelerada e sem autorização judicial de maquinários de grande porte da sede da empresa. O documento também considera a paralisação completa da produção e a situação de abandono da matriz como elementos para a decretação da falência.
Bens serão levantados e vendidos
Com a decisão, começa uma nova etapa do processo. A Recupere, responsável pela administração judicial, deverá arrecadar os bens e documentos pertencentes à Três Irmãos, realizar o inventário e providenciar a avaliação do patrimônio. Posteriormente, os ativos deverão ser vendidos, com os recursos destinados ao pagamento dos credores de acordo com as regras estabelecidas pela legislação.
Também deverá ser indicado um leiloeiro. A Justiça determinou ainda a realização de buscas destinadas a localizar outros possíveis bens da empresa, como imóveis, equipamentos e demais ativos que possam integrar a massa falida.
Após assumir formalmente a função no processo de falência, a Administração Judicial terá 60 dias para apresentar um plano detalhado de realização dos ativos, com previsão de prazo não superior a 180 dias para a venda dos bens.
Em até 40 dias após a assinatura do termo, deverá ser apresentado ainda um relatório indicando as causas da quebra e eventuais responsabilidades civis e penais relacionadas ao caso.
A Três Irmãos, por sua vez, deverá apresentar a relação de credores em planilha eletrônica no prazo estabelecido pela Justiça. Posteriormente, os credores poderão questionar os valores relacionados no processo. Por esse motivo, o passivo atualmente estimado em R$ 133 milhões ainda poderá ser revisado.
De pequena marcenaria a fornecedora internacional
A história da Três Irmãos começou em 1971, em Campo Alegre. O negócio nasceu como uma pequena marcenaria familiar dedicada inicialmente à fabricação de carroças. Com o passar dos anos, a produção avançou para móveis de madeira maciça, incluindo mesas, cadeiras e peças entalhadas artesanalmente.
A empresa cresceu junto com a força da indústria moveleira do Planalto Norte catarinense e passou a conquistar também o mercado internacional.
Um dos grandes marcos ocorreu em 2009, quando realizou sua primeira exportação para a IKEA, multinacional sueca e uma das maiores empresas do setor de móveis do mundo.
A expansão continuou em 2016, quando a Três Irmãos adquiriu uma unidade industrial em Caçador, no Meio-Oeste catarinense. A planta chegou a processar aproximadamente 15 mil toneladas de madeira por mês, contando com investimentos em automação, maquinário, gestão e controle de qualidade.
Em 2020, a empresa inaugurou ainda um parque industrial de mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul. A unidade, porém, acabou sendo fechada em maio de 2023.
Crise começou a se aprofundar após a pandemia
No processo de recuperação judicial, a Três Irmãos apontou que sua crise financeira começou a se aprofundar a partir de 2021, especialmente em consequência dos efeitos da pandemia de Covid-19 sobre o comércio e a logística internacional.
A escassez de contêineres, atrasos nos portos e dificuldades na obtenção de matérias-primas aumentaram significativamente os custos.
Segundo informações apresentadas no plano de recuperação judicial, o transporte marítimo de um único contêiner chegou a aproximadamente US$ 10 mil, cerca de sete vezes o valor registrado antes da pandemia.
A situação teria chegado ao ponto de a indústria não possuir espaço suficiente para armazenar os móveis prontos que aguardavam embarque, provocando inclusive suspensões temporárias da produção.
Entre o final de 2022 e 2023, outro problema atingiu a indústria: a redução das vendas internacionais acompanhada pela alta dos juros.
Dados mencionados no plano apontavam queda de 27,7% nas exportações catarinenses de móveis em 2023, na comparação com o mesmo período de 2022.
Ao mesmo tempo, aumentaram os custos de madeira, MDF, ferragens, colas, vernizes, energia elétrica, combustíveis e transporte.
A combinação de queda nas receitas, aumento dos custos e dificuldades no mercado externo reduziu a capacidade da empresa de cumprir suas obrigações financeiras. Em 2024, a Três Irmãos buscou na recuperação judicial uma alternativa para renegociar as dívidas e manter as operações.
Dois anos depois, diante do agravamento da situação e dos fatos apontados no processo, a recuperação judicial foi convertida em falência.
Fim de uma trajetória que marcou gerações
Para Campo Alegre e principalmente para a região de Fragosos, a falência representa muito mais do que o encerramento de uma empresa.
Durante mais de cinco décadas, a Três Irmãos fez parte da história econômica do Planalto Norte catarinense, empregando diferentes gerações de trabalhadores e movimentando uma cadeia produtiva que ultrapassava as divisas municipais.
A proximidade da fábrica com Piên também fez com que moradores do município paranaense encontrassem na indústria uma oportunidade de trabalho ao longo dos anos, assim como trabalhadores de São Bento do Sul e outras cidades da região.
Agora, o processo entra na fase de levantamento e venda do patrimônio e definição dos valores efetivamente devidos aos credores. Os próximos procedimentos judiciais também deverão esclarecer a situação dos trabalhadores e demais credores envolvidos na falência.

