LAPA - CAMPO DO TENENTE
Uma reivindicação que ganhou força nos últimos anos entre moradores, empresários, agricultores e autoridades da região está mais próxima de sair do papel. O Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) abriu uma licitação para a construção de uma nova ponte sobre o Rio da Várzea, na PR-427, na divisa entre Lapa e Campo do Tenente.
A nova travessia será implantada ao lado da atual ponte metálica centenária, que possui apenas uma faixa de circulação e há anos representa um dos principais gargalos viários entre os dois municípios.
O DER publicou a licitação no dia 18 de agosto de 2026. A contratação prevê não apenas a construção da ponte, mas também a elaboração dos projetos básico e executivo e a adequação dos acessos da PR-427. Ao todo, as intervenções abrangerão 847,07 metros da rodovia.
A novidade representa uma mudança importante na história recente da ligação entre Lapa e Campo do Tenente. A atual ponte passou por sucessivas reformas e interdições, consumiu investimentos milionários e tornou-se motivo de cobranças políticas e de preocupação para milhares de pessoas que dependem diariamente da rodovia.
Nova ponte terá duas faixas, acostamentos e cerca de 150 metros
Conforme o anteprojeto da obra, a nova ponte será construída em concreto armado, com aproximadamente 150 metros de extensão e 13 metros de largura.
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| FOTO: DER/PR |
A estrutura deverá contar com duas faixas de rolamento de 3,5 metros cada, permitindo finalmente a circulação simultânea nos dois sentidos. Também estão previstos acostamentos de 2,5 metros e barreiras de concreto do tipo New Jersey nas laterais.
A diferença em relação à estrutura atual é significativa. A ponte histórica possui 152,95 metros de comprimento, mas somente 3,3 metros de pista, permitindo a passagem de veículos em apenas um sentido por vez. A estrutura foi originalmente construída para utilização ferroviária e posteriormente adaptada ao tráfego rodoviário. Segundo o DER, sua construção remonta ao final do século XIX.
Além da nova ponte, o contrato prevê adequações nos acessos da PR-427 e a correção da geometria de uma curva próxima à travessia.
Ponte centenária será preservada
Apesar da construção da nova estrutura, a velha ponte de ferro não deverá desaparecer da paisagem. A previsão é de que, depois da conclusão da nova travessia, a estrutura centenária deixe de receber o tráfego rodoviário e seja preservada para utilização por pedestres, mantendo seu valor histórico e cultural.
A ponte fazia parte de uma antiga linha ferroviária e foi utilizada pelos trens até o início da década de 1960. Com a mudança do traçado ferroviário, os trilhos foram retirados e a estrutura acabou incorporada à PR-427.
Nova ponte chega depois de anos de polêmicas
O anúncio ganha ainda mais relevância quando analisado diante do histórico recente da velha ponte. As condições da estrutura e as sucessivas intervenções realizadas pelo poder público transformaram a travessia em tema recorrente de debates na região.
Uma das maiores reformas começou no início de 2023. Na ocasião, o Governo do Paraná havia contratado uma recuperação estrutural por aproximadamente R$ 3,9 milhões. A intervenção incluiu a retirada do antigo tabuleiro de concreto e sua substituição por gradil metálico, além de recuperação de elementos estruturais, pintura, passarela para pedestres, novas lajes e outras melhorias.
Quando o DER realizou a vistoria final e anunciou oficialmente a conclusão dos trabalhos, em janeiro de 2024, informou que o investimento total na recuperação havia chegado a R$ 4,8 milhões. A expectativa era aumentar a vida útil da estrutura e reduzir os problemas que anteriormente já haviam provocado interdições. Mas os transtornos voltariam.
Em setembro de 2025, a ponte voltou a ser totalmente interditada para uma nova obra emergencial. Segundo o DER, haviam sido constatados danos nos grampos de fixação das chapas metálicas, rompimento de soldas e outros problemas no tabuleiro. Também foram previstos reforços nas treliças metálicas, intervenções nos acessos, limpeza e pintura. O investimento anunciado nessa nova etapa foi de R$ 2.503.540,30.
Somadas apenas a recuperação estrutural concluída em 2024, de R$ 4,8 milhões, e a intervenção emergencial iniciada em 2025, as duas etapas representam aproximadamente R$ 7,3 milhões em investimentos na ponte antiga.
O próprio DER apontou, entre os fatores relacionados aos problemas encontrados na estrutura, o excesso de peso e velocidade de veículos pesados, além das características e da idade da ponte.
Interdições viraram transtorno para toda a região
Cada fechamento da ponte trouxe consequências que foram muito além dos limites de Lapa e Campo do Tenente. Como a travessia integra uma ligação estratégica da PR-427 e não existe uma alternativa pavimentada curta ao lado da estrutura, os bloqueios obrigaram motoristas a utilizar rotas muito maiores ou estradas municipais não pavimentadas.
Durante a interdição de 2025, por exemplo, a orientação para os veículos pesados era utilizar as rodovias BR-476 e BR-116. Para automóveis, havia a possibilidade de utilização de estradas não pavimentadas.
Na prática, moradores que fazem o deslocamento cotidiano entre Campo do Tenente e Lapa passaram a enfrentar trajetos maiores, enquanto estradas de comunidades do interior também receberam um volume adicional de veículos.
Os impactos atingiram trabalhadores, estudantes, agricultores, empresas, transportadores e moradores que dependem da ligação para acessar serviços nas duas cidades.
Empresários relataram queda de até 40% no faturamento
A dimensão do problema ficou evidente durante uma audiência pública regional realizada em novembro de 2025, em Campo do Tenente.
O encontro reuniu representantes de Campo do Tenente, Lapa, Rio Negro e Quitandinha, além de empresários, agricultores e moradores.
Durante a audiência, empresários relataram quedas de até 40% no faturamento e necessidade de demissões em razão dos impactos provocados pela situação da ponte. Agricultores afirmaram que precisavam realizar desvios de até 26 quilômetros, elevando despesas com combustível, transporte e maquinário.
Naquele momento, uma das principais reivindicações apresentadas era justamente aquilo que agora começa a avançar administrativamente: a construção de uma nova ponte.
As Câmaras envolvidas também anunciaram que encaminhariam questionamentos relacionados ao planejamento e à aplicação de recursos ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).
Ponte foi reaberta em janeiro, mas voltou a exigir reparos
Depois de meses fechada durante a obra emergencial iniciada em 2025, a ponte foi novamente liberada para o tráfego no final da tarde de 16 de janeiro de 2026.
Na intervenção, o tabuleiro recebeu novamente placas de concreto armado. Segundo o DER, a mudança em relação à solução inicialmente prevista ocorreu durante a elaboração do projeto executivo e buscava proporcionar maior estabilidade e reduzir o ruído durante a passagem dos veículos. Nem isso encerrou definitivamente as intervenções.
Em junho deste ano, a estrutura voltou a precisar de reparos no tabuleiro de concreto. O DER programou novo bloqueio total para os dias 9 e 10 de junho, período necessário para execução dos serviços e cura do material aplicado. Durante a interrupção, veículos leves tiveram novamente de utilizar uma estrada municipal não pavimentada, enquanto os pesados foram direcionados à BR-116.
A sequência de reformas, bloqueios e manutenções reforçou a cobrança regional por uma solução que não dependesse exclusivamente da estrutura construída há mais de um século.
Ligação estratégica para o Sul do Paraná e Região Metropolitana
A importância da nova ponte também está relacionada à localização estratégica da PR-427.
A rodovia constitui a principal ligação direta entre Campo do Tenente e Lapa e integra uma malha utilizada para acessar importantes corredores rodoviários da região.
Pela Lapa, a PR-427 se conecta à BR-476, a Rodovia do Xisto, corredor que segue em direção a Araucária e Curitiba e também faz conexão com outras regiões do Estado. A PR-427 também integra o sistema regional de ligação com outras importantes rodovias.
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| A rodovia PR-427 constitui a principal ligação direta entre Campo do Tenente e Lapa e integra uma malha utilizada para acessar importantes corredores rodoviários da região - Foto: Divulgação |
Do lado de Campo do Tenente e municípios próximos, a malha rodoviária permite conexão com a BR-116, um dos principais corredores logísticos do país.
Por isso, os reflexos das interdições não ficaram restritos aos moradores das duas cidades. A situação afetou também o transporte de cargas, a produção agrícola, empresas e motoristas de municípios vizinhos.


