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| Carros que não são flex podem sofrer com aumento da mistura de etanol na gasolina Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil |
Os motoristas brasileiros começam a conviver, a partir deste sábado (1º), com uma nova composição da gasolina vendida nos postos de combustíveis. Entra em vigor a mistura E32, que eleva de 30% para 32% o percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina comum.
A mudança, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), terá validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada por mais seis meses. Com a nova regra, o Brasil passa a ter uma das maiores misturas obrigatórias de etanol na gasolina do mundo e lidera entre as grandes economias, superando com ampla margem países desenvolvidos como Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido.
Embora o Governo Federal defenda que a medida reduzirá a necessidade de importação de gasolina, fortalecerá a produção nacional de biocombustíveis e poderá ajudar a conter o preço do combustível, especialistas alertam para possíveis reflexos no consumo, principalmente em veículos mais antigos e importados.
Consumo tende a aumentar
Um dos principais efeitos esperados é a redução da autonomia dos veículos. Isso ocorre porque o etanol possui menor poder energético que a gasolina. Na prática, para percorrer a mesma distância, o motor precisa consumir um volume um pouco maior de combustível.
Nos veículos flex mais modernos, essa diferença tende a ser pequena. Já em automóveis e motocicletas exclusivamente a gasolina, especialmente modelos mais antigos, o aumento no consumo pode ser mais perceptível.
Caso o preço da gasolina não apresente redução suficiente para compensar essa perda de rendimento, o custo por quilômetro rodado poderá aumentar, exigindo abastecimentos mais frequentes e impactando principalmente quem utiliza o veículo diariamente ou percorre grandes distâncias.
Veículos antigos exigem mais atenção
Outro ponto que preocupa especialistas é a compatibilidade da nova mistura com veículos fabricados antes da popularização dos motores flex ou importados desenvolvidos para mercados onde o teor de etanol é significativamente menor.
Segundo engenheiros do setor automotivo, esses veículos podem apresentar maior desgaste de mangueiras, borrachas e vedações, envelhecimento precoce de componentes do sistema de combustível, necessidade de manutenção preventiva mais frequente, aumento no consumo de combustível.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) chegou a defender a realização de novos estudos antes da adoção definitiva da medida.
Já o Ministério Público Federal ingressou com uma ação civil pública solicitando a suspensão do aumento da mistura, alegando que ainda existem dúvidas sobre os impactos técnicos e ambientais da mudança.
Governo aposta na redução das importações
O Ministério de Minas e Energia afirma que a nova mistura permitirá reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina.
Entre os benefícios apontados pelo Governo estão fortalecimento da produção nacional de etanol, menor dependência do petróleo importado, redução das emissões de gases de efeito estufa, possibilidade de redução ou contenção do preço da gasolina ao consumidor.
Segundo os testes apresentados pelo governo, a maior parte da frota nacional é compatível com a nova composição.
Brasil lidera entre as grandes economias
Com a entrada em vigor da gasolina E32, o Brasil amplia ainda mais a diferença em relação aos países desenvolvidos quando o assunto é percentual obrigatório de etanol na gasolina.
Comparativo internacional
País Percentual de etanol
🇧🇷 Brasil 32%
🇵🇾 Paraguai 25% a 30%
🇧🇴 Bolívia 25%
🇦🇷 Argentina 12%
🇺🇾 Uruguai 10%
🇺🇸 Estados Unidos 10% (E10)
🇫🇷 França 10% (E10)
🇩🇪 Alemanha 10% (E10)
🇮🇹 Itália 10% (E10)
🇪🇸 Espanha 10% (E10)
🇬🇧 Reino Unido 10% (E10)
🇨🇦 Canadá entre 5% e 10%
🇯🇵 Japão entre 3% e 10%
Na prática, isso significa que a gasolina brasileira passa a conter mais de três vezes o percentual de etanol encontrado na gasolina comum comercializada na maior parte dos países desenvolvidos.
Período de transição
Apesar da nova regra entrar em vigor neste sábado, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) estabeleceu um período de adaptação para que distribuidoras e postos possam comercializar os estoques produzidos antes da mudança. Durante esse prazo, não haverá autuações relacionadas ao novo percentual.
Os prazos são:
Distribuidoras: 15 dias (Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste) e 30 dias na Região Norte.
Postos de combustíveis: 30 dias nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste e até 60 dias na Região Norte.
O que muda para o motorista?
Para a maioria da frota flex moderna, a tendência é que as mudanças sejam discretas. Já proprietários de veículos antigos, motocicletas mais antigas e alguns modelos importados devem redobrar a atenção quanto à manutenção preventiva e ao comportamento do veículo após os abastecimentos.
Independentemente do tipo de veículo, especialistas afirmam que a principal mudança percebida pelos consumidores tende a ser uma leve redução da autonomia. O impacto financeiro dependerá da relação entre o aumento do consumo e o preço praticado pelos postos nas próximas semanas.
