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| Paraná já contabiliza 10 tornados somente neste ano de 2026. Última ocorrência foi confirmada em Piraí do Sul, ocorrida no último sábado (8) - FOTO: DIVULGAÇÃO |
BRASIL
POR ALEXANDRE CARVALHO
Temporais com ventos intensos, granizo e tornados têm assustado moradores; localização geográfica coloca o Sul do Brasil em uma das áreas da América do Sul mais favoráveis à formação de tempestades severas
As imagens impressionam e, para quem vive no Sul do Brasil, também preocupam. Nuvens gigantescas, granizo, rajadas destrutivas e tornados têm aparecido com frequência no noticiário de 2026. No Paraná, um número em especial chama a atenção: o estado já contabiliza 10 tornados somente neste ano.
O mais recente atingiu Piraí do Sul, nos Campos Gerais, no sábado (8), deixando um rastro de destruição e atingindo cerca de 20 residências. O fenômeno ocorreu em meio a mais uma sequência de tempestades severas que atingiu a região Sul.
Entre os municípios paranaenses associados a ocorrências de tornados neste ano estão Turvo, Inácio Martins, Nova Cantu, Laranjeiras do Sul, Cruz Machado, Reserva, Mercedes, São José dos Pinhais, Foz do Iguaçu e Piraí do Sul. Há ainda fenômeno sob análise técnica.
A situação não é exclusiva do Paraná. Nas últimas semanas, tornados também foram registrados no Rio Grande do Sul. Em 28 de julho, um único tornado percorreu áreas dos municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho. Em 6 de agosto, outro fenômeno foi registrado na região de Pedro Osório.
Dois dias depois veio Piraí do Sul. Ou seja: em menos de duas semanas, três episódios tornádicos chamaram atenção somente entre Rio Grande do Sul e Paraná.
81 REGISTROS NO BRASIL
Em âmbito nacional, levantamentos divulgados pela PREVOTS (Plataforma de Registros e Observações Voluntárias de Tempestades Severas) apontam 81 registros de tornados no Brasil entre janeiro e julho de 2026. Em 2025, foram contabilizados 92 registros.
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| Em novembro de 2025 um tornado de classificação F4 devastou Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná FOTO: Divulgação |
É importante, porém, entender o que esses números representam. A PREVOTS é uma iniciativa técnico-científica voltada ao estudo e documentação de tempestades severas e não constitui um serviço meteorológico oficial do governo brasileiro. Além disso, não há uma base nacional oficial, homogênea e consolidada que permita comparar diretamente todos os fenômenos registrados pelos estados.
Também não é possível concluir simplesmente que o Brasil passou a ter muito mais tornados. Hoje existem mais radares, câmeras, celulares, redes sociais e observadores capazes de registrar fenômenos que décadas atrás poderiam ocorrer, principalmente em áreas rurais, sem qualquer documentação.
Da mesma forma, embora um clima mais quente possa alterar ambientes favoráveis à ocorrência de tempestades severas, ainda existem limitações científicas para atribuir diretamente a quantidade de tornados observada em um determinado ano exclusivamente ao aquecimento global ou à influência de fenômenos como o El Niño.
O que os episódios recentes deixam claro é a necessidade de monitoramento, alertas cada vez mais rápidos e preparação da população para eventos meteorológicos extremos.
Cidades no Paraná já atingidas por tornados neste ano:
- Turvo
- Inácio Martins
- Nova Cantu
- Laranjeiras do Sul
- Cruz Machado
- Reserva
- Mercedes
- São José dos Pinhais
- Foz do Iguaçu
- Nova Cantu
SANTA CATARINA
Até o momento, a Secretaria da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina não confirmou nenhum tornado oficial no estado em 2026. Um caso suspeito na Serra Catarinense (em São Joaquim) no início de maio foi avaliado e descartado pelo órgão, que atribuiu os estragos a uma linha de instabilidade severa. Outras ocorrências estão em investigação em São Joaquim (Maio). Até 10 de agosto de 2026, o levantamento mais consistente aponta 5 tornados/trombas d’água confirmados ou catalogados em Santa Catarina:
11 de janeiro — São Francisco do Sul: tromba d’água/tornado sobre a água, registrada em vídeo.
12 de janeiro — Canoinhas, distrito de Felipe Schmidt: tornado fraco, com contato com o solo e danos à vegetação.
30 de junho — Itaiópolis: três tornados distintos, produzidos em sequência pela mesma supercélula. A PREVOTS identificou os três eventos a partir da análise da tempestade e dos rastros.
Portanto, 3 em Itaiópolis + 1 em Canoinhas + 1 em São Francisco do Sul = 5 eventos em SC em 2026.
RIO GRANDE DO SUL
Os registros disponíveis indicam pelo menos 7 ocorrências/eventos tornádicos no Rio Grande do Sul até 10 de agosto de 2026. Entre os registros encontrados estão:
- 29/01 — região de Camaquã/Palmares do Sul/São José do Norte (trombas d’água tornádicas);
- 12/02 — Pelotas;
- 15/02 — Encruzilhada do Sul/Canguçu;
- 21/03 — Sertão;
- 21/03 — Passo Fundo;
- 28/07 — Giruá/Sete de Setembro/Senador Salgado Filho;
- 06/08 — Pedro Osório.
O caso de 28 de julho, por exemplo, foi oficialmente confirmado pelo Centro de Monitoramento da Defesa Civil do RS: tratou-se de um único tornado que percorreu áreas de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, associado a uma supercélula.
ATENÇÃO: esses números não representam uma estatística oficial conjunta dos três estados. O levantamento desta reportagem utiliza informações divulgadas por órgãos meteorológicos, Defesas Civis e registros disponíveis publicamente na internet. Por utilizarem fontes e critérios diferentes, esses números não devem ser somados ou comparados diretamente aos 81 registros nacionais atribuídos à PREVOTS.
O QUE É UM TORNADO?
Um tornado é uma coluna de ar em intensa rotação que se estende de uma nuvem de tempestade até a superfície. O conhecido formato de funil pode aparecer abaixo da nuvem, mas é o contato da circulação com a superfície que caracteriza o tornado.
Muitos desses fenômenos estão associados a supercélulas, tempestades altamente organizadas que possuem uma corrente ascendente em rotação.
Para que tempestades desse tipo se desenvolvam, alguns ingredientes atmosféricos são fundamentais, como grande disponibilidade de calor e umidade, instabilidade e o chamado cisalhamento do vento — mudanças na velocidade e/ou direção dos ventos conforme aumenta a altitude.
POR QUE O SUL TEM TANTOS TORNADOS?
A resposta passa diretamente pela localização geográfica. O Sul do Brasil integra uma extensa região da América do Sul, envolvendo também áreas do Paraguai, Argentina e Uruguai, conhecida pela elevada ocorrência de tempestades convectivas severas.
Ar quente e úmido proveniente de regiões tropicais encontra com frequência massas de ar mais frio avançando de latitudes mais altas. A própria Cordilheira dos Andes influencia a circulação atmosférica e o transporte de calor e umidade sobre o continente.
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| Estragos causados por tornado ocorrido em Pedro Osório, no Rio Grande do Sul FOTO: Divulgação |
Quando esses ingredientes se combinam com ventos favoráveis em diferentes níveis da atmosfera, podem surgir tempestades severas, supercélulas, granizo de grande tamanho, rajadas destrutivas e tornados. Por isso, embora os números impressionem, talvez a discussão mais importante não seja apenas quantos tornados estão acontecendo.
Para uma região exposta a tempestades potencialmente violentas, o desafio é outro: detectar os fenômenos rapidamente, fazer o alerta chegar à população e, principalmente, ensinar as famílias a saberem o que fazer quando o perigo estiver se aproximando.



