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Morre em Curitiba mãe que passou mais de 30 anos à procura do filho desaparecido; história comove o Paraná e deixa legado de luta e esperança

Arlete faleceu aos 82 anos, neste terça-feira. Ela partiu sem encontrar seu filho, desaparecido desde de 1991
Foto: Reprodução Internet


Uma vida inteira marcada pela dor, mas também pela coragem. Morreu nesta terça-feira (24), em Curitiba, aos 82 anos, Arlete Caramês Tiburtius — a mãe que se tornou símbolo da luta por crianças desaparecidas no Paraná. Ela passou mais de três décadas procurando pelo filho, Guilherme, e partiu sem obter a resposta que buscou incansavelmente durante toda a vida.

Arlete estava internada em um hospital da capital e não resistiu. Sua morte encerra uma trajetória profundamente comovente, que ultrapassou o drama pessoal e se transformou em uma causa coletiva.

A dor começou no dia 17 de junho de 1991. Guilherme Caramês Tiburtius, então com apenas 8 anos, saiu de casa, no bairro Jardim Social, para dar uma volta de bicicleta — e nunca mais voltou.

Antes de desaparecer, o menino ainda fez uma ligação para a mãe, pedindo autorização para usar um dinheiro que havia encontrado na rua. Horas depois, já próximo do almoço, saiu pela última vez. A partir dali, começava um dos casos mais misteriosos e emblemáticos do Paraná.

Alerte ainda tinha esperanças de encontrar o filho Guilherme.
Foto: Reprodução/Documentário Arlete: o legado de Guilherme/Universidade Positivo


As buscas mobilizaram forças policiais, cães farejadores e até varreduras em rios próximos. Nenhum vestígio foi encontrado. Nem o menino. Nem a bicicleta.

Mas se o desaparecimento trouxe silêncio, a resposta de Arlete foi o oposto: ela fez da dor uma voz. Do luto à luta: uma mãe que virou símbolo.

Sem nunca desistir, Arlete transformou o sofrimento em ação. Fundou, em 1992, o Movimento Nacional da Criança Desaparecida do Paraná (CriDesPar), organização que passou a atuar na prevenção e busca por crianças desaparecidas, ganhando reconhecimento em todo o país.

Sua mobilização também ajudou a impulsionar a criação do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), em 1996 — referência nacional no atendimento desses casos.

Dentro de casa, o tempo parecia ter parado. As roupas, os objetos e as lembranças de Guilherme permaneciam intactos, como se a qualquer momento ele pudesse voltar pela porta.

Mesmo com o passar dos anos, a esperança nunca morreu. Em entrevista concedida no ano passado, Arlete deixou claro: ainda acreditava que poderia reencontrar o filho com vida.


Da dor à política: uma voz ativa pela causa

A luta levou Arlete também à política. Bancária de profissão, ela foi eleita vereadora de Curitiba e, posteriormente, assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná. Durante sua trajetória pública, criou leis importantes, como a que instituiu a Semana da Prevenção Contra Desaparecimentos de Crianças e Adolescentes no calendário oficial da cidade.

Sua atuação sempre teve um único objetivo: evitar que outras famílias passassem pelo mesmo sofrimento. Uma despedida sem respostas, mas com um legado eterno. 

A Câmara Municipal de Curitiba lamentou a morte e destacou o impacto de sua trajetória. Autoridades e colegas ressaltaram sua coragem, resiliência e compromisso com a vida.

Arlete Caramês parte sem encontrar o filho que tanto procurou. Mas deixa algo ainda maior: um legado de amor incondicional, de luta incansável e de esperança que resistiu ao tempo, à dor e ao silêncio. A história de Guilherme continua sem resposta. Mas a história de Arlete jamais será esquecida.

Porque, enquanto existirem famílias procurando por seus filhos, o nome dela seguirá vivo — como símbolo de uma mãe que nunca desistiu.

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